02 outubro, 2007

O mito do herói

Aquiles prestes a matar a rainha amazona Pentesiléia, em Tróia. Vaso grego do século VI a.C."Uma das muitas distinções entre a celebridade e o herói é que um vive apenas para si, enquanto o outro age para redimir a sociedade."

Ultimamente tenho lido muito sobre mitos e mitologia (curiosamente, para um projeto de tese em botânica... tente imaginar isso). Eu diria que enquanto a farinha de trigo do assunto seja a obra de Carl Jung, o bolo são os livros de Joseph Campbell, Mircea Eliade, Paul Diel, e outros da mesma estatura.

Segundo Campbell (cuja obra de referência é O Herói de Mil Faces), o herói em todo mito é aquele personagem que abandona seu ego infantil durante uma aventura perigosa, e renasce para o mundo com um dom, o dom de transformar a realidade à sua volta. O herói do mito nunca trabalha para si, mas empenha-se em salvar a sociedade em que vive das suas aflições. É o Édipo que retorna para livrar Tebas da Esfinge, o Hércules que se entrega à escravidão e caça as mais perigosas feras do mundo em seus Trabalhos, até mesmo o Anakin Skywalker que, ao ver seu filho Luke à beira da morte, se volta contra seu mestre e livra a galáxia da tirania do Imperador, sacrificando sua própria vida. Pense em um herói, e a sua história seguirá sempre, mais ou menos, o mesmo roteiro, como o refrão de uma música.

Ayrton SennaFiz esse preâmbulo para falar de Ayrton Senna. Eu diria que existem dois Ayrtons: um real e um mitológico. Eu não sou tão fã do Senna como sou fã de qualquer outro piloto excepcional que tenha passado pela Fórmula 1, mas tenho quase certeza de que fãs muito mais empenhados do que eu já tenham passado os olhos sobre eventos da carreira do brasileiro, digamos, um tanto quanto "humanos" (e citarei apenas esses propositadamente, as boas qualidades reservarei para outra ocasião). Político feroz, passou para trás quem pôde para escalar o sucesso, e manteve as amizades certas; passou dos limites da esportividade na pista para garantir suas vitórias; manipulou pessoas e opiniões em proveito próprio; obstinado e compenetrado, não era nem um dos mais alegres nem um dos mais simpáticos protagonistas do espetáculo. Nada exatamente execrável, mas não são, de modo algum, compatíveis com a aura de santidade que alguns preservam ao seu redor.

E por que tantos no Brasil e no mundo adoram (no sentido literal da palavra) Ayrton Senna? Mesmo entre fãs de outros pilotos, especialmente entre os jovens (e mais especialmente, entre os mais fanáticos de Michael Schumacher, ou, aqui no Brasil, entre alguns fãs de Nelson Piquet), Ayrton Senna desperta uma paixão tão primal (e por isso eu temo que escrever sobre o assunto seja como me atirar aos leões) que é necessário, para que seus próprios ídolos tenham maior valor, que Senna seja, necessariamente, desvalorizado. Para um fã alucinado do heptacampeão alemão, é necessário que Senna tenha sido "sujo" ou que tenha menos títulos ou vitórias para que a jamanta de conquistas de Schumacher tenha algum sentido. O que explica essas paixões antagônicas - que, na verdade, são a mesma paixão apontada para direções opostas, porém oriundas do mesmo núcleo? E por que esse núcleo normalmente se chama Ayrton Senna, e não outro piloto igualmente humano e de talento equivalente, como o próprio Schumacher, ou Prost, ou Piquet, ou Clark, ou Ascari, ou Lauda?

Senna sai na frente no GP de Detroit de 1986Ayrton foi um gênio em todos os sentidos. Até meados de 1986, Senna era um piloto talentoso, porém inconstante. Seu talento e seu futuro na categoria eram ofuscados pelo sucesso de Nelson Piquet, na época bicampeão do mundo e disputando mais um título numa equipe de ponta. Senna era a promessa num carro inferior que quebrava ou batia em mais da metade das provas. Eis que, no dia anterior ao GP dos Estados Unidos, em Detroit, o Brasil passou por um baque tremendo ao ver a seleção de Zico e companhia ser derrotada nos pênaltis pela França, nas quartas de final da Copa do Mundo do México. No dia seguinte, após uma corrida espetacular, Senna venceu o GP dos Estados Unidos - com o direito ao detalhe circunstancial de ainda contar com os dois pilotos franceses em segundo e terceiro. Mas o ponto máximo, e justamente o que ficou melhor impresso na minha memória, foi o fato dele ter pego uma bandeira do Brasil e desfilado com ela pelas ruas de Detroit na volta de comemoração. Foi aí que nasceu o herói de Campbell. Não sei se ele tinha isso em mente quando tomou aquela atitude (provavelmente não), mas o fato é que, a partir daí, sua imagem se tornou tão positiva que sua influência nas decisões dentro do "circo" se tornariam quase irresistíveis. Uma coisa era "botar a banca" na Lotus, uma equipe à beira do abismo que dependia dele para o seu sucesso, e a outra foi a capacidade de manobrar os rumos de toda a categoria, como faria nos anos seguintes.

O herói é aquele que abandona seu ego e passa a agir para redimir a sociedade de seus males. A imagem que Ayrton Senna transmitiu naquele domingo, e a imagem que ele adotou para si mesmo até o fim da carreira, foi a imagem do patriota, aquele não estava correndo apenas por fama, fortuna e superação pessoal, mas aquele que estava sacrificando a si mesmo pela sua pátria. Isso conquistou o público de maneira tão contundente que chega a ser uma indagação quase religiosa quando se perguntam "quando surgirá um novo Senna?". Senna leva a bandeira brasileira ao pódio em Interlagos, 1993Não bastou Schumacher demonstrar tanta superioridade em relação aos seus adversários que os fez parecer medíocres durante quase 15 anos, ele não era um "Senna", não era o herói que se esforçava para salvar alguma sociedade qualquer (a despeito de sua generosa doação às vítimas do tsunami na Ásia em 2004/2005). No imaginário popular, Senna dava o sangue para chegar ao final da corrida e empunhar a bandeira de um país com baixa auto-estima.

A palavra "ídolo" vem do grego "eídolon", que significa "imagem". O ídolo é uma imagem de uma pessoa real, não a própria pessoa. A imagem que chegou ao grande público de Ayrton Senna foi a imagem do herói, conforme a definição acima. Até que ponto a imagem foi fabricada e até que ponto ela era real, isso exige uma análise mais profunda que eu não tenho condições de fazer. Mas não é difícil para mim, agora, entender porque, até hoje, esse brasileiro é tão amado tanto entre os fãs do esporte a motor como entre os leigos.

Fontes: JDB Hamilton's Web Site (foto), Formula One Facts (fotos)

4 comentários:

Thiago disse...

Pessoalmente, acredito que não se reinventar só resulta na estagnação. Eu detestaria me tornar como as pessoas mais velhas com quem convivo - que possuem os mesmos valores que há décadas(!) atrás.

Claro que não falo de extremos... infelizmente, há algum tempo atrás, eu cometi o erro de matar o meu ego para poder fugir do estigma comportamental da minha família. Isso foi um erro punível com a descaracterização também dos meus bons anseios e acabei perdendo tudo em mim para me tornar novamente uma criança. Quase enlouqueci por isso.

(pondo as loucuras de lado)
Preciso visitar mais este seu blog! ... você tem feito artigos bastante interessantes!

abçs

Rio Kart disse...

Que post! Mês difícil na faculdade e fiquei um bom tempo sem passar aqui... estou lendo um a um os posts que deixei passar, mas nesse tive que deixar meus parabéns!

A imagem do Senna vencendo no Brasil levantando o troféu após perder as marchas foi um reforço e tanto para a construção desse herói, não?! rs

Eu sou daqueles que baixo a bola do Senna sempre que vejo o pessoal exagerando nas comparações, principalmente quando são feitas com o Schumacher, confesso.

Mas é o que você disse, o Senna foi e é o Senna. Até nas entrevistas do cara o tom de voz, o olhar pra câmera, tocam fundo. O sujeito era diferenciado e merece reverência. Seja qual for o motivo, seja qual for a explicação.

Strik3r disse...

Eu tenho uma visão do Senna diferente da vossa, por diversas razões. A principal é o facto de ser português e por isso a comemoração da vitória dele no EUA pouco significado teve para mim, no que à conjuntura descrita diz respeito.

Tornei-me fã do Senna bem cedo. Já no mítico GP de Portugal de 1985 eu estava a torcer por ele, pois na minha inocência da infância (tinha 9 anos na altura) o homem era um piloto e tanto.

Nunca me esquecerei desse GP, bem como do célebre GP do Japão 1989, em que fizeram aquela sacanagem de o desqualificarem de forma vergonhosa, quando fez uma corrida de recuperação simplesmente fantástica, como outra em que bateu Nigel Mansell numa ultrapassagem suicida após mais uma recuperação de leão...

Esses momentos, junto com outros que já estão mais esquecidos, associado ao facto de Senna ter competido numa época em que eram poucos os pilotos vulgares e em que não era qualquer menino de 21 ou 22 anos que pegava naqueles monstros de 4 rodas, que contribuíram para que ele seja, para mim, o maior piloto de todos os tempos.

Igor disse...

Não vejo o Senna como um mito, mas como um guerreiro que proporcionava momentos inesquecíveis, tanto pelo seu talento pilotando e recuperando "trocentas" posições contra "monstros" inesquecíveis da F1, seja na chuva ou no sol, como por essas demonstrações de amor à pátria, ao ponto de um simples ato de erguer uma bandeira no cockpit de um carro fazer tanta gente se sentir orgulhosa de fazer parte daquela pátria que o Senna erguia em suas vitórias.
Outra coisa que o Senna tinha de diferenciado em relação aos demais grandes pilotos, é que ele era um ator protagonista de uma novela que milhares de brasileiros e outros fãs internacionais acompanhavam todos os Domingos pela manhã (na maioria das vezes), esperando um final feliz para o herói (que muitas vezes não acontecia), mas em todas as vezes se esperava um repertório novo que nos arrancasse sorrisos ou risadas pelo seu jeito moleque e irresponsável de pilotar.
O Senna pode não ter sido uma figura tão simpática e querida entre os outros pilotos enquanto ele viveu, mas ele guardava alegria para as pistas com seu carisma e diversão nos fazendo sorrir na hora das corridas com aquela McLaren promovendo prodigiosidades, na época em que a diferença técnica entre os carros era menos abismal do que hoje e onde o talento poderia ser melhor visto quando um grande piloto em um carro mediano ganhava "no braço" de um grande piloto em um grande carro. Schumacher é tão grande quanto o Senna, mas Schumacher em seu auge suplantava bons pilotos em carros absurdamente não tão competitivos (tirando algumas exceções), mas na época em que "grandes pilotos" eram maioria, ele seria mais um que com certeza não seria heptacampeão mundial, talvez seria tricampeão como o Senna, mas com certeza se o Senna corresse até hoje as coisas poderiam ter sido bem mais fáceis (Que o diga Fangio...)